Entrevista: Revista Platero

Entrevista (na íntegra) concedida a jornalista Lays Sayon Saade para Revista Platero da Livraria Martins Fontes para um artigo sobre Jane Austen, “A escritora inglesa que cativou o mundo”.

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ENTREVISTA

Revista Platero: Como você definiria a literatura e o estilo de Jane Austen?

Raquel Sallaberry Brião: Jane Austen é única e praticamente não se enquadra nos estilos literários de sua época, o neoclasssismo e préromantismo, como bem a definiu Otto Maria Carpeaux* ao falar sobre a arte novelística desse período: “Jane Austen é libertada do seu isolamento histórico; continua, porém, isolada em função de seu gênio; não se pretenderá transformar o fenômeno individual em movimento literário, por meio de aproximações artificiais.”

RP: Que livros dela você destacaria e qual o maior encanto desses romances?

RSB: Difícil destacar um pois gosto de todos os livros de Jane Austen. Reconheço, porém, que Orgulho e preconceito é o mais lido e admirado. A própria Jane o considerava seu “filho amado”. Nele encontramos personagens adoráveis e atuais como Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas não dominada por elas; Mr. Darcy um herói um pouco arrogante, como devem ser os heróis; o senhor Bennet e sua fina ironia; e meu personagem preferido, o obsequioso clérigo Mr. Collins, dono absoluto de minhas risadas. Outro livro pouco mencionado mas muito engraçado é a Abadia de Northanger, em que a autora satiriza os livros góticos e os romances de modo geral, e que tem o mais alegre de seus heróis, Mr. Tilney. Persuasão, o último livro que completou, tem o encanto da maturidade.

As observações mordazes sobre os sentimentos humanos:

“[Os Musgroves] tiveram a triste sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes de chegar aos vinte anos.[...] Raramente se ouvia falar dele e pouco lamentaram quando, dois anos antes chegara a Uppercross a notícia de sua morte no exterior.” (trad. Luiza Lobo)

E a ternura de um romance maduro e creio eu a mais linda carta de amor que Jane escreveu:

“Não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar com você pelos os meios de que disponho neste momento. Você fendeu minha alma. Sou metade agonia, metade esperança. Não me diga que é tarde demais, que sentimentos tão preciosos foram-se para sempre. Ofereço-me para você de novo com um coração muito mais seu do que quando você quase o despedaçou há oito anos e meio atrás.  Não se atreva a dizer que o homem esquece mais rápido do que a mulher, que seu amor morre mais cedo. Eu tenho amado somente você, mais ninguém. Injusto posso ter sido, fraco e ressentido também, mas nunca inconstante. Você, apenas você trouxe-me para Bath. Faço planos pensando somente em você. Você não ainda percebeu? Terá você falhado em entender meus desejos? Eu não teria esperado nem estes dez dias se tivesse podido ler seus sentimentos como eu penso que você penetrou nos meus. Quase não posso escrever. A todo instante ouço alguma coisa que me atordoa. Você abaixa sua voz, mas eu posso distinguir seus tons mesmo quando perdidos em meio aos outros. Boníssima e excelente criatura! Você nos faz justiça, deveras. Você crê que há afeto verdadeiro e constância entre os homens. Creia “nisto” mais fervoroso e constante em
F. W.
Devo partir – incerto de minha sorte –, mas voltarei aqui ou irei para sua festa, assim que possível. Uma palavra, um olhar, será o suficiente para que eu decida entrar na casa de seu pai esta noite, ou nunca.” (trad. minha)
* Seus livros são um retrato da sociedade daquela época? Quais os romances em que isso é mais evidente, pode citar alguma passagem ilustrativa?
Os livros de Jane Austen são o retrato de sua época dentro de seu mundo, as gentry, uma espécie de classe média alta, raramente ricos, mas com posses para uma vida respeitável e principalmente conscientes de sua importância política e cultural.

Um exemplo, em Orgulho e preconceito, a discussão entre Lady Catharine de Bourgh e Elizabeth Bennet sobre o provável noivado da primeira com o sobrinho da segunda,

” — [...] Minha filha e meu sobrinho são feitos um para o outro. Descendem os dois pelo lado materno, da mesma linhagem nobre; e ele do paterno, de famílias respeitáveis, honradas e antigas, embora sem títulos. Sua fortuna, de ambos os lados, é esplêndida. Estão destinados um ao outro pela voz de todos os membros das respectivas casas;  e o que há entre eles? As presunçosas pretensões de uma jovem sem família sem relações e sem fortuna. Pode ser algo assim tolerado? Para o seu próprio bem, não deveria desejar deixar a classe na qual foi criada.
— Casando-me com o seu sobrinho, eu não me consideraria deixando essa classe. Ele é um cavalheiro; eu sou a filha de um cavalheiro; assim sendo, somos iguais.” (trad. Celina Portocarrero)

RP: Quais as críticas mais apuradas que ela faz aos costumes e aos valores da sociedade? Pode mencionar alguns exemplos significativos?

RSB: Jane Austen era conservadora e suas críticas são mais sobre as atitudes individuais.
Em Mansfield Park, o seu livro mais severo, os irmãos Crawford são criticados por terem tido uma criação liberal demais; em Razão e sentimento há críticas sobre Mrs.Dashwood, mãe das heroínas, por ser romântica e pouco prática. Em Emma: Mr. Knightley reprova as atitudes de Mr. Frank Churchill:

“Há uma coisa, Emma, que um homem sempre pode fazer se assim quiser, que é cumprir o seu dever; não através de subterfúgios ou meandros, mas com vigor e decisão.” (trad. Ivo Barroso)

RP: Por que ela é tão querida pelos ingleses?

RSB: Os ingleses, talvez por se reconhecerem perfeitamente em seus personagens, percebam mais rapidamente sua técnica, que vai muito além do romance agradável. Tanto que a comparam a Shakespeare.

RP: Em que momento é possível perceber claramente o espírito inglês presente em seus romances?

RSB: Na sátira discreta mas contundente.

RP: O que a consagrou como uma escritora universal? O que a torna tão atual duzentos anos após sua morte, levando seus livros a ganharem seguidas reedições, traduções e versões para o cinema?

RSB: O que a consagrou como escritora universal e a mantém tão atual é a sofisticação – com perspicácia, simplicidade e humor – com que escreveu sobre pessoas reais.

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ARTIGO NA REVISTA PLATERO

CATEGORIAS: Entrevistas | COMENTÁRIO ( 1 )

Entrevista: Denise Bottmann

Entrevista concedida ao Jane Austen em Português em Abril de 2009 por Denise Bottmann, tradutora, historiadora e autora do blog Não Gosto de Plágio.

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Jane Austen em Português: Denise, o que é plágio? Há mais de um tipo de plágio?

Denise Bottmann: Todo ser humano é dotado de direitos pessoais invioláveis, entre eles o direito à vida, ao próprio corpo e a seu nome. Todo ser humano é dotado da capacidade de criar alguma coisa. Essa obra, fruto de seu trabalho, carrega a identidade pessoal de seu criador, expressa em seu nome. Quando alguém toma uma obra de outrem e se apresenta como seu autor, está ferindo um dos direitos básicos do ser humano, o direito a seu nome. Se o assassinato é o principal crime contra o direito pessoal à vida, entendo o plágio como o principal crime contra o direito pessoal ao nome. Não é um simples roubo, é uma subtração da existência do autor, simbolizada pelo nome, na obra por ele criada. Neste sentido, o plágio é um assassinato. Não creio que exista meio-plágio: creio que a caracterização do tipo é única e absoluta. Ou há, ou não há.
O que pode ocorrer é que uma determinada obra seja apenas parcialmente plagiada, ou que haja a tentativa de disfarçar esse plágio. As formas podem variar, mas o crime é o mesmo: o atentado a um direito essencial do ser humano.

JAP: Como é feita a verificação dos livros plagiados?

DB: É bastante fácil constatar se há plágio, mas não sei explicar em termos técnicos. Se você ouve uma música e a identifica como A, composta por B; se depois você ouve a mesma música ou trechos muito semelhantes a ela, mas identificados como X, mas de composição atribuída a Y, você pode concluir que se trata de um plágio. A questão não é a semelhança, a questão é a atribuição da autoria.
Hoje em dia existe um ramo de estudos e pesquisas bastante desenvolvido, chamado forensic linguistics, justamente dedicado às técnicas de estabelecer os graus de plagiato. Existem também vários programas de computador para detetar o índice de repetibilidade dos mesmos termos entre dois textos diferentes.
No caso desses livros que venho cotejando, trata-se de plágios muito simples: cópias literais ou semiliterais, que não demandam expertise nenhuma. Basta olhar e ver.

JAP: Há mais traduções de Jane Austen plagiadas no Brasil, além de Persuasão e Orgulho e preconceito?

DB: Atualmente tenho notícia de plágios das traduções de Jane Austen apenas nos casos da Landmark (Persuasão) e da Martin Claret (Orgulho e preconceito). Tomara que sejam os únicos!

JAP: O que está sendo feito e o que é possível fazer para nos livrar dos plágios?

DB: A primeira e principal medida para reduzir a quantidade de plágios no Brasil, a meu ver, é uma reformulação da Lei dos Direitos Autorais 9.610/98. Deve-se contemplar a sugestão feita por um grupo de estudos da FGV: obras esgotadas há mais de 3 anos, sem reedição, devem ser liberadas da reserva patrimonial da editora que detém seus direitos de publicação. Com isso elas podem voltar a ser livremente impressas, respeitando-se devidamente o direito moral de seu autor/tradutor. Assim os leitores terão acesso normal a elas e à informação sobre seus verdadeiros autores/tradutores.
Enquanto não há essa reformulação ou uma flexibilização da lei, impedindo que as obras criem mofo no fundo dos baús das editoras, o que resta a nós é denunciar, reclamar, entrar com petições e representações contra as editoras criminosas, e não compactuar de maneira alguma, a pretexto algum, com tais fraudes.

Muito obrigada, Denise!

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